April 9, 2015

Querido Caio Abreu,

Não sei se é correto lhe chamar assim, lhe chamo pelo nome todos os dias, mas não sei se você escuta.

Tento achar coragem de lhe escrever há eras, e agora, lendo sua crônica “Carlos chega ao céu” consegui essa aúdacia. Primeiro que te escrever parece algo ridículo, é como cantar ao lado da Beyonce, você sabe que será humilhado.

Mas pelo jeito que você escreve, aah, meu caro! Parece tanto comigo… temos os mesmos sentimentos, o mesmo jeito de conversar com o leitor, como se estivessemos ao lado dele, acho que é por isso que você é meu escritor preferido.

Eu te amo, Caio. Não digo isso nunca pra ninguém, mas eu e você temos algo inexplicavel. Ta, eu sei que você está rindo agora, devo parecer uma fã ridícula, mas eu te conheço e sei seus defeitos e qualidades, eu li sua alma. Sei mais que o google pode contar, mais que as reportagens sobre você diz. Sei que acredita em fadas e sei que deve admirar Bukowski e que adora anjos e observar pessoas pelas ruas. Sei que gosta de palavras, não só de seus significados, mas de como elas ficam escritas e como são pronunciadas. Sei que devia ir em lugares com muita gente só pra vê-las e imaginar o que vivem ou quem são, talvez até se passam por problemas omo os seus.
Somos tão parecidos… Tão unidos por algo invisivel e amável.
Eu chorei quando descobri que você estava morto e chorei de novo quando cheguei ao fim de Pequenas Epifanias e li suas crônicas narrando as dores da AIDS parecia que eu o via ali em meu lado desfalecendo e não podia fazer nada, parecia que eu via a mim mesma morrendo aos poucos, se esforçando pra alcançar a maquina e sofrendo por cada tecla apertada…. Caio, Caio… choro agora só de lembrar. Eu queria abraçá-lo, queria te curar, pegar sua dor pra mim, queria morrer por você… Mas você se foi e aquilo me destruiu…
se arrepende do que te deu AIDS? Você deve saber quem lhe passou. Ainda ama essa pessoa?
Queria poder conversar com você melhor, saber das respostas. Tudo está tão difícil por aqui. Na verdade sempre foi, só que o tempo passa e tudo vai se acumulando. Por isso escrevo. Escrever é como respirar pra mim, é como se só assim eu comprovasse que estou viva. Acho que nisso você me entende bem.
Queria ler Limite Branco, mas não posso, li a introdução e chorei por uma noite inteira. Você parece tão vivo pra mim! Por que se foi? Por que me deixou antes que eu lhe conhecesse?
Ah! Alias, achei o livro que você procurava. Fizeram uma reimpressão deles e aixei em PDF (então tenho ele digital no meu computador). Pensei várias vezes em imprimir e colocar no seu túmulo. Porém, se tivesse dinheiro pra ir até seu cemitério, eu não teria conseguido ir. Mal consigo ler seu romance…
Suas crônicas me mantêm viva desde sempre. Seus poemas fizeram-me querer ser escritora e agora essa é minha maldição (ou minha benção). Devo tudo a você.
Eu amo você.

Com todo carinho do mundo, de sua filha por parte de papel e tinta e sua fã de alma e coração.

PS: você ouvirá falar de mim e um dia, quando nos encontrarmos (se suas histórias sobre a morte estiverem corretas), podemos discutir Neruda e Shakespeare e até morrer de rir. Imagine um texto nosso…

(i-thought-of-you-today-love.tumblr.com)

Gabriella Aragone.
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