Querido Alguém,
Querido Alguém,
os dias vem sendo difíceis para mim e eu sei que para você os dias também não facilitaram. Estou passando por um bloqueio artístico por um tempo e essa carta que eu te escrevo agora é a primeira coisa que eu consigo escrever sem apagar tudo na sexta palavra. Isso é bom, quer dizer, eu adoro escrever e conseguir passar todos os meus sentimentos e minhas ideias para um papel ou uma pasta no computador e/ou celular é gratificante para mim. Escrever faz parte de quem eu sou e por muito tempo eu nem mesmo sabia quem eu sou, agora sei, pelo menos um pouco de mim. Quando não consigo escrever sinto-me morta e vazia, como se só restasse o meu corpo e minha alma estivesse se esvaindo, isso dói.
Querido, eu não sei de onde você veio e nem quando você foi, mas eu sei que não está tão longe assim. Acredito que a morte é apenas mais uma fase da vida, essa visão transcendental vem me consolando por muito tempo, nosso corpo humano morre, mas nossas almas continuam pairando pelo o universo, nos recebendo com o primeiro raio de sol do dia e nos dando um “até logo” com o pôr do sol. Acredito que nós somos os fertilizantes da terra e não apenas isso, o ar que nós, vivos, respiramos agora tem resquícios dos mortos. Não é mórbido, não quero que tenham medo de mim por acreditar que as coisas sejam assim, mas acredito mesmo que são os mortos que enfeitam o céu com as belíssimas estrelas que nós vemos aqui da terra. Não é um fato, é apenas a minha humilde opinião que vem acalentando o meu coração por muito tempo. Me sinto demasiadamente empática e às vezes isso me machuca. Gostaria de demonstrar a minha empatia falando de uma garota jovem brasileira que morreu essa semana. O nome dela eu não lembro agora, me parece um ato de apatia, mas vamos esquecer essa parte. Uma bela jovem bailarina, entre dezessete e vinte anos, adorava dançar e estava animada com a viagem que ela iria fazer para se apresentar num palco. As suas últimas horas de vida foram ao lado de um rapaz que sabe lá Deus quem ele é ou o que fez com ela. Essa notícia me deixou profundamente magoada, sabe, porque ela estava lá e eu não a conheço, porém ela lutava por um sonho, o seu sonho. Ela lutava para deixar a sua marca no mundo e foi embora antes de conseguir nos marcar da forma que ela almejava. Senti tamanho medo que um ar frio passava pelo meu corpo me fazendo ter arrepios, daqueles que a gente sente algo muito ruim. Eu estaria muito mais desamparada se não pela minha crença de que as pessoas continuam vivas mesmo após o seu corpo partir. A morte, creio eu, é o estado mais difícil da vida, tento me manter sensata quando penso sobre a morte, mas eu sei que se algum amado meu morresse eu me acabaria por achar que a morte seria o fim. Nenhum de nós nunca está preparado para isso. Bom, garota que eu não sei o nome, mas sei a história bem resumida e consigo imaginar como seria te conhecer e te abraçar, eu sinto muito por você e por todos aqueles que você deixou (não estou falando na minha visão transcendental, perdoem-me pela minha contradição). Eu sinto muito por você não ter escolhido a forma como queria ir embora, ou por não ter realizado o seu sonho. Eu sinto muito por você. Sinto muito mesmo. Sinto mais ainda por não lembrar o seu nome, isso torna as coisas mais difíceis, me perdoe. Eu sei que um dia vamos superar a sua morte e, acredite você ou não, a tua existência foi relevante, para mim e muitos outros. Foi um prazer conhecer um pouco da sua história, mesmo que quase nada. Você é incrível.
Obrigada Ava Dellaira, por ter escrito um livro tão esplêndido e por ter me dado a singela oportunidade de escrever, algo que eu não fazia há um tempo. Me sinto muito melhor.
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